História do Edifício Santos Dumont

Na paisagem urbana do Rio de Janeiro, o Edifício Santos Dumont destaca-se ao longe por sua elegância e beleza. Como uma torre, nobilita o espaço ao redor. Como um obelisco, é monumento e marco.

Do pavimento de cobertura pode ser vislumbrada toda a beleza da cidade do Rio de Janeiro – a baía de Guanabara, o maciço da Serra da Carioca, a região serrana fluminense, o Pão de Açúcar, o Cristo Redentor, a Ponte Rio-Niterói, o estádio do Maracanã, Niterói, parte da Zona Norte e subúrbios, o Aterro do Flamengo e todo o Centro da cidade.

Quando em 1970, o Clube de Aeronáutica realizou uma concorrência para escolher a empresa que construiria sua sede, o projeto apresentado pela Servenco - Serviços de Engenharia Continental impôs-se entre os demais. Propunha-se a forma circular. Só ela garantiria o melhor aproveitamento do terreno de 1.300 m², localizado na esquina da rua Santa Luzia com a avenida Calógeras. Só ela ofereceria ampla visibilidade em todas as janelas, conjugando a forma nobre com a necessidade de abrigar lojas, instalações para o Clube de Aeronáutica, um hotel, pavimentos comerciais e garagens.

No último pavimento, desfrutando de uma vista soberba do Rio de Janeiro, seria construído o único restaurante giratório da América do Sul, onde os visitantes e clientes, sentados em suas mesas, vislumbrariam, durante uma hora, 360º de raríssima beleza.

O projeto audacioso enfrentaria sua primeira dificuldade ao se iniciarem as escavações do solo. Logo abaixo da superfície serpenteava o enrocamento do antigo cais, vestígio de época anterior de sucessivos aterros, quando o mar ainda beirava a rua Santa Luzia. Era preciso vencer o espesso muro de pedra, que chegava a alcançar até 9 metros de profundidade e, outros tantos de largura.

Vencido os obstáculos, a obra prosseguiu até seu ponto fundamental: a armação e o erguimento da forma deslizante, num dos métodos de construção mais avançados da época. Um desafio tecnológico, com que seria realizado o núcleo central.

Durante 3 anos, 11 meses e alguns dias, a obra foi sendo levantada de 20 metros abaixo do nível do terreno até 140 metros de altura da superfície. No dia 3 de novembro de 1971 o terreno começava a ser preparado para permitir o início dos trabalhos de fundações. Além das sondagens convencionais, foram feitos ensaios de penetração estática para medir a resistência do solo e determinar melhor a profundidade de assentamento dos tubulões. Estas informações foram fornecidas por um aparelho, chamado penetrômetro hidráulico motorizado, que controla a resistência do terreno quase de 20 em 20 centímetros, sendo usado, normalmente, em obras de vulto.

Analisados os resultados das sondagens, optou-se pela fundação com tubulões de concreto armado, já que haveria uma concentração de carga de até duas mil toneladas nos pilares. Empregou-se nas fundações um total de 21 tubulões de camisa de concreto, com diâmetro variando entre 1,70 e 2 metros, além de 49 estacas metálicas e 25 perfis de escoramento.

Os pilares da lâmina central foram preparados para receber cargas de até 2.350 toneladas. As fundações foram executadas com a colocação em círculo, no centro do terreno, de nove dos grandes tubulões. Estes foram encimados por um bloco de coroamento com a forma de octógono, medindo 1,80 metros de altura e 13 metros de distância de face a face. O consumo deste bloco foi de 80 toneladas de ferro e 1.400 sacos de cimento. Logo após a concretagem do piso do sub-solo e, após dez meses e 53 mil homens/hora de trabalho nas fundações, o edifício surgiu acima da superfície.

Os trabalhos de estrutura do edifício, entretanto, ainda não haviam terminado, pois apenas metade dos pilares sobe até o último dos cinco pavimentos de garagem. Devido a isso, para abraçar estes pilares, existe acima do bloco de estacionamento um pavimento de transição estrutural, com 3,80 metros de altura, 1,20 metros de largura e 90 metros de comprimento – onde nascem, também, novos pilares, funcionando como uma espécie de fundação mais elevada. O núcleo central, que deste ponto parte, tem a função de um pilar central onde chegam as vigas radiais de todos os pavimentos.

Depois de concretados três pavimentos utilizando-se formas convencionais, iniciou-se o levantamento do núcleo central através do sistema de formas deslizantes, provocando grande surpresa nos que das ruas acompanhavam o crescimento diário do edifício. As formas deslizantes movimentavam-se no sentido vertical apoiada pela força de macacos hidráulicos, deixando abaixo de si uma estrutura de concreto já armada. Estes macacos hidráulicos reagiam sobre tubos comprimidos de aço resistente que eram colocados dentro da forma, embutidas nas paredes de concreto.

À medida que a forma se enchia de concreto, os macacos iam subindo, guiados pelos tubos de elevação, em etapas de aproximadamente seis centímetros. Através deste sistema, subiram 43 pavimentos no espaço de 58 dias, ganhando-se tempo e segurança na elevação de mais de 121 metros.

Utilizando-se 620 mil lajotas foi iniciada a fase de alvenaria. O Edifício tinha, então, o formato exterior de uma imensa árvore de concreto, com as lajes de concreto aparente ligadas pelas vigas radiais ao núcleo central. Com a colocação de esquadrias de alumínio e dos vidros a aparência externa do edifício começava a mudar. O taqueamento dos pisos dos pavimentos utilizou dois mil metros de tacos de peroba e onze mil metros de tacos de ipê. Nas 4.400 janelas da fachada foram aplicados 8 mil m² de vidros cristal bronze de 6 mm, importados do Japão. Foram utilizados na fachada 11.000 m² de alumínio anodizado na cor natural, correspondentes a 96 toneladas de alumínio. A fachada foi finalizada com o envernizamento do concreto, utilizando-se vernizes à base de resina de poliuretano, impermeabilizante.

E quando, em novembro de 1975, a Servenco entregou ao Clube de Aeronáutica o edifício mais alto do Estado, estava consciente de que, na silhueta esbelta com suas 4.400 janelas, havia erguido um monumento à técnica e a perseverança, ponto referencial do Centro da cidade do Rio de Janeiro. O edifício, inaugurado com a denominação “Edifício Clube de Aeronáutica”, teve seu nome, posteriormente, modificado para Edifício Santos Dumont, quando a sede do Clube de Aeronáutica retornou às suas antigas instalações na Praça Marechal Âncora, junto ao COMAR III.

O material empregado dá justa dimensão de grandeza.

A área total construída de 18.439 m² foi erguida com:

  • 140.000 sacos de cimento
  • 3.008.683 Watts de capacidade total de energia elétrica
  • 13.000 metros cúbicos de areia
  • 11.500 metros cúbicos de pedra britada
  • 1.900 toneladas de vergalhões estruturais
  • 1.724 toneladas - capacidade de refrigeração
  • 14.000 metros de tubos para instalações hidráulicas
  • 957 registros
  • 620.000 tijolos
  • 53.000 homens/hora no serviço de fundações
  • 49 estacas metálicas
  • 1.274.000 litros de água distribuídos em 8 reservatórios